Não é fácil retornar no tempo e no espaço, tentando encontrar respostas a tantas indagações e divergências. Mas não podemos negar que os ciganos sempre foram, e ainda são, vítimas de preconceitos, discriminações e perseguições.
Na Europa, apesar das discriminações, a cultura cigana é mantida, pois há uma verdadeira união entre aqueles ciganos, motivando, assim, a preservação de suas tradições e crenças. São essas tradições que caracterizam a Nação Cigana, que é uma só, mesmo encontrando-se espalhada pelo mundo. Um dos elos dessa união é sua antiga língua, o Romani, que permite aos ciganos entendimento mútuo pelo mundo todo, ultrapassando qualquer fronteira.
Infelizmente, no Brasil, os ciganos são vistos como mais uma "onda" do esoterismo, entrando e saindo de moda de acordo com o momento. Vez ou outra, observamos "gadjes" (não ciganos) numa busca frenética por festas e objetos ciganos. Isso é louvável. Mas, em alguns casos, se torna profano como a falta de reverência adequada com as sagradas fogueiras ciganas que devem ser acesas, ou mesmo o desleixo com seus oráculos.
Essa busca por esta cultura, paradoxalmente, muitas vezes, discrimina os próprios ciganos, ou acaba por tomar seus espaços, caracterizando uma pilhagem e a tomada de posse indevida da identidade cultural alheia. E o que é pior, sem seriedade ou respeito algum.
É óbvio que, apesar de tanta discriminação, a cultura cigana exerce um fascínio sobre os não ciganos. Temos nossas leis e regras sociais, mas isso não nos impede de sermos um povo livre. Não criamos raízes e ficamos plantados como uma árvore no solo, estamos sempre em busca de novos horizontes. Talvez, seja esse sentimento de liberdade que os não ciganos sintam falta e busquem, inconscientemente, suprir com aproximação de nossa cultura.
O escopo da União Cigana do Brasil é justamente esse. Mas a aproximação com os não ciganos, em alguns casos, vem se tornando uma ameaça para nós. Tenho observado, ao longo desses anos, que cresceu o número de admiradores da nossa cultura. Foi este o objetivo da União Cigana do Brasil, desde o início de sua caminhada. Mas, por outro lado, alguns admiradores de nossa cultura não percebem que deve haver uma linha que separa a autenticidade do imaginário e que cabem aos de origem representarem sua cultura quando é necessário.
Através da União Cigana do Brasil, foi criado o grupo "Mio Vacite e o Encanto cigano", com o objetivo único de divulgar a música, o canto e a dança cigana. Faço aqui uma observação para os grupos simpatizantes de nossa cultura da responsabilidade que assumem ao representarem, como ciganos, nossa etnia.
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